O que está sendo construído
O empreendimento ocupa cerca de 70 hectares dentro da zona de processamento de exportação do complexo portuário do Pecém: dois prédios principais de mais de 70.000 m² cada, 20 salas de dados, uma subestação e uma estação de tratamento de esgoto. A operadora é a Omnia, plataforma de data centers da gestora Patria; segundo reportagens, os primeiros 200 MW de carga de TI, dentro de uma capacidade elétrica de 300 MW, estão totalmente contratados pela ByteDance. As obras começaram em janeiro de 2026; em meados de setembro a estrutura do primeiro prédio estava concluída, e a meta da operadora para iniciar a operação é julho de 2027.
É a primeira fase de algo maior. A ByteDance anunciou o plano de levar o local a 1 GW, e o investimento total em todas as etapas é estimado em mais de R$ 200 bilhões, com cerca de R$ 50 bilhões na primeira fase; os equipamentos que a ByteDance financia incluem servidores e GPUs, os chips usados em IA. Um dirigente municipal disse que cinco data centers foram aprovados para a mesma zona, só um deles público, e o planejamento energético nacional prevê pelo menos seis projetos de data centers eletrointensivos no Ceará até 2035, com demanda somada de 2,7 GW — até 3,34 GW numa estimativa posterior do governo estadual.
Por que esta é uma história do litoral
Caucaia é o município do Cumbuco, um dos destinos de kitesurf mais conhecidos do Brasil, e da Lagoa do Cauípe, logo atrás da praia, a cerca de 8 km do centro do Cumbuco, onde crianças da comunidade vizinha aprendem a saltar e onde houve uma competição de kitesurf em 29 de agosto de 2026. A lagoa fica dentro de uma área de proteção ambiental de 1.884 hectares, criada por decreto estadual em 1998 para proteger suas nascentes, reservas de água e mata ciliar.
Segundo a ação civil pública ajuizada na Justiça Federal em setembro de 2026, o data center fica a cerca de 2 km dessa área protegida, que se sobrepõe em parte à Terra Indígena Anacé, ainda em estudo pelo órgão federal de assuntos indígenas. A ação registra que as comunidades vizinhas dependem principalmente de poços, numa região com longo histórico de escassez de água.
Energia: 300 MW, e o que “100% renovável” significa aqui
Quando o TikTok confirmou o projeto, em dezembro de 2025, disse que o local funcionaria exclusivamente com energia renovável de novos parques eólicos construídos para ele pela Casa dos Ventos, sem usar a rede pública existente. Reportagens posteriores descrevem o arranjo de outro modo: um contrato de fornecimento de 20 anos em que os novos parques — cerca de 700 MW, por cerca de R$ 4 bilhões — injetam energia no sistema nacional, e o consumo do data center é compensado com essa geração por contrato. Outra reportagem fala em R$ 3,5 bilhões em investimento eólico. A localização dos parques não foi divulgada.
O projeto também prevê 120 geradores a diesel de reserva. Procuradores federais e defensores públicos pediram um plano de risco para a armazenagem de diesel, relatórios mensais ao operador nacional do sistema elétrico e a conexão ao esquema automático de alívio de carga do Nordeste — os dois últimos tratam de como uma carga desse porte se comporta na rede.
Para dar escala: 300 MW são cerca de um quinto da carga elétrica estimada do Ceará hoje, calculada em cerca de 1,5 GW. Funcionando na capacidade máxima o ano inteiro, 300 MW somariam cerca de 2,6 TWh — conta nossa, e um teto, já que nenhum número de consumo anual foi publicado. Os 2,7 a 3,34 GW previstos para projetos de data centers até 2035 seriam cerca de 1,8 a 2,2 vezes a carga do estado hoje.
Água: quatro números e uma lacuna
A água é onde o registro público mais diverge. O mesmo projeto aparece em licenças, outorgas, peças de procuradores e reportagens com quatro números diferentes, e uma lacuna:
- Cerca de 19,7 m³ por dia
- O que é
- Consumo declarado no pedido de licenciamento ambiental
- Onde aparece
- Pedido de licença prévia, publicado em dezembro de 2025
- 30 m³ por dia
- O que é
- Uso licenciado, descrito como circuito fechado abastecido por poço artesiano
- Onde aparece
- Licença ambiental estadual, publicada em maio de 2025; reafirmado pela operadora em outubro de 2026
- 88,24 m³ por dia
- O que é
- Consumo citado por procuradores federais e defensores públicos, quase três vezes o número divulgado no início; a operadora contesta
- Onde aparece
- Recomendação conjunta, maio de 2026
- 144 m³ por dia (52.560 m³ por ano, 1,66 L/s)
- O que é
- Máximo permitido por duas outorgas de poço válidas até abril de 2035; a Casa dos Ventos, então responsável pelo projeto, disse que o segundo poço é redundância
- Onde aparece
- Outorgas estaduais de recursos hídricos, publicadas em novembro e dezembro de 2025
- Não publicado
- O que é
- Volume de água de reúso: autoridades federais pediram, ou disseram que o local usará, água de reúso
- Onde aparece
- Declarações públicas, publicadas em dezembro de 2025
O que os números de água significam
O maior número é cerca de 7,3 vezes o menor, e é um teto, não uma previsão: o órgão ambiental estadual diz que a autorização não obriga a empresa a usar o volume total. Mesmo o teto é modesto perto de uma cidade ou de uma indústria. O dirigente da companhia estadual de recursos hídricos o comparou ao consumo diário de um condomínio de 150 famílias e o pôs ao lado dos cerca de 1.000 L/s usados pelo distrito industrial do Pecém; essa comparação foi publicada como 0,001%, mas os números informados dão cerca de 0,17%.
O volume não é a questão inteira. A água vem de poços numa área de dunas onde as comunidades também dependem de poços, e Caucaia decretou emergência por seca ao menos uma vez em 16 dos 21 anos entre 2003 e 2024, segundo reportagens. A ação pede testes de bombeamento com monitoramento simultâneo dos poços vizinhos e a validação empírica do modelo hidrogeológico e do seu limiar de rebaixamento de 0,40 m. O TikTok descreve o resfriamento como um circuito fechado de reúso de água, e a ação descreve captação de água subterrânea para resfriamento; em outubro de 2026, a operadora disse que o local usará 30 m³ por dia, cerca de 3 m³ para resfriamento e o restante para consumo humano. Nenhuma descrição técnica do sistema de resfriamento foi publicada.
Licenciamento e a ação judicial
O órgão ambiental estadual classificou o projeto como de baixo a médio impacto, o que exige um relatório ambiental simplificado em vez de um estudo de impacto ambiental completo. As licenças prévia e de instalação foram concedidas; a licença de operação, não.
Em maio de 2026, procuradores federais e defensores públicos recomendaram que o data center não entrasse em operação antes de cumprir novas exigências ambientais. Em setembro de 2026, eles ajuizaram uma ação civil pública na Justiça Federal (processo 0080626-66.2026.4.05.8100) pedindo que nenhuma licença de operação seja emitida até que o povo Anacé seja consultado nos termos da Convenção 169 da OIT e que um estudo de impacto completo seja feito. Quatro organizações da sociedade civil pediram depois que a própria obra pare enquanto a Justiça decide. Os Anacé já protestaram contra o projeto, inclusive em agosto de 2025 e em abril de 2026.
A operadora diz que suas licenças são válidas, que os novos pedidos se referem apenas à fase de operação e que, por ora, não espera atraso em relação à meta de julho de 2027; ela também contesta o número de água dos procuradores. O TikTok não comentou, dizendo não ser parte do processo. Até 3 de novembro de 2026, não encontramos nenhuma decisão judicial publicada.
O que não foi publicado
Estes são os números que permitiriam a qualquer pessoa avaliar a pegada do projeto, e nenhum deles é público ainda:
- Um número de água medido ou de projeto para a operação plena, e a tecnologia de resfriamento por trás dele.
- O consumo anual de eletricidade esperado e a eficiência (PUE), não só a capacidade.
- A localização e a geração dos parques eólicos do contrato, e se o consumo do data center é casado com eles hora a hora ou só ao longo do ano.
- O diesel armazenado no local, e quantas horas os 120 geradores devem funcionar em testes e falhas de energia.
- Dados de monitoramento dos poços em torno do local.
- O que o local vai processar: entrega de vídeo, recomendação, treinamento de IA ou inferência de IA.
O que tornaria esta análise errada
Todos os números aqui vêm de licenças, outorgas, peças judiciais, declarações de empresas e reportagens, não de medição. Capacidade não é consumo: o local pode funcionar bem abaixo de 300 MW, sobretudo nos primeiros anos, e os tetos de água podem nunca ser atingidos. A operadora contesta pelo menos um dos números de água, e as reportagens divergem sobre o tamanho do novo investimento eólico. Quando uma licença de operação, uma decisão judicial ou dados medidos forem publicados, esta análise será atualizada.
A AYON Ecosystem não toma posição sobre se o data center deve operar. Esta análise mapeia o que se sabe e o que não se sabe, para que praticantes, moradores e leitores acompanhem a decisão com os mesmos números. A falta de medição é uma lacuna conhecida neste litoral: a pesquisa costeira anterior da AYON Ecosystem não encontrou nenhuma estação da rede automática do serviço meteorológico nacional a menos de 60 km do Cumbuco. Medição, mais do que opinião, é o que resolveria a maior parte das perguntas acima.
Isto é análise de pesquisa sobre fontes publicadas, não uma auditoria. Números de empresas são divulgações das próprias empresas; resultados de laboratório descrevem suas condições de teste, não todo produto; projeções não são medições. Os números deste campo mudam rápido, por isso cada um é datado pela sua fonte.
Referências e dados
- 1.Diário do Nordeste — Omnia segue cronograma de Data Center do TikTok no Ceará em meio à ação do MPF (Sep 2026) — Situação da obra (estrutura do primeiro prédio concluída, setembro de 2026), 20 salas de dados, dois prédios de mais de 70.000 m² cada, 200 MW de carga de TI que seriam contratados pela ByteDance, meta da operadora para julho de 2027 e sua visão de que a ação trata só da fase de operação.
- 2.InvestNews — O data center do TikTok no Ceará: o quebra-cabeça por trás do gigante de R$ 200 bilhões (Jun 2026) — Estrutura (Omnia, Patria, ByteDance, Casa dos Ventos), 300 MW na primeira fase, cerca de R$ 50 bilhões de investimento inicial, plano de 1 GW e mais de R$ 200 bilhões, servidores e GPUs, contrato de energia de 20 anos, cerca de 700 MW de novos parques eólicos por cerca de R$ 4 bilhões injetando no sistema nacional, operadora contestando o número de água, protestos Anacé em agosto de 2025 e abril de 2026.
- 3.eixos — TikTok confirma primeiro data center na América Latina (Dec 2025) — Confirmação do TikTok, dezembro de 2025: mais de R$ 200 bilhões em todas as etapas, energia exclusivamente renovável de novos parques eólicos dedicados, sem uso da rede pública existente, resfriamento em circuito fechado, primeira operação em 2027.
- 4.The Next Web — Omnia and Casa dos Ventos sign $2bn power deal anchoring TikTok's Brazil data centre (May 2026) — Acordo de fornecimento de energia de cerca de US$ 2 bilhões, maio de 2026; cerca de R$ 3,5 bilhões em nova capacidade eólica; 200 MW de carga produtiva dentro de um envelope de 300 MW; parques sem localização divulgada.
- 5.O POVO — Apenas um dos data centers aprovados em Caucaia segue sem negócio (Jul 2026) — Um dirigente municipal: cinco data centers aprovados para o complexo da Omnia na zona de processamento de exportação, só um deles público, julho de 2026.
- 6.Diário do Nordeste — Data centers no Ceará podem consumir energia equivalente a 7 milhões de residências (Aug 2026) — Pelo menos seis projetos de data centers eletrointensivos previstos no Ceará até 2035, com demanda prevista de 2,7 GW (plano decenal de energia); até 3,34 GW entre 2027 e 2035 na estimativa posterior do governo estadual.
- 7.O POVO — Casa dos Ventos amplia investimentos e quer alcançar 11 GW até 2030 (Mar 2026) — Carga elétrica atual do Ceará estimada em cerca de 1,5 GW, março de 2026.
- 8.Ceará State Decree 24,957 of 5 June 1998 — Lagamar do Cauípe environmental protection area — Cria a área de proteção ambiental do Lagamar do Cauípe, em Caucaia, com 1.884 hectares, para proteger nascentes, reservas de água e mata ciliar.
- 9.Diário do Nordeste — Lago Nautic Festival leva competições náuticas à Lagoa do Cauípe (Aug 2026) — Kitesurf entre as competições na Lagoa do Cauípe, Caucaia, em 29 de agosto de 2026.
- 10.SmarterTravel — Brazil's kite surfing paradise — Kitesurf na Lagoa do Cauípe, perto do Cumbuco, onde crianças da comunidade vizinha treinam saltos.
- 11.MPF — MPF e DPU vão à Justiça para impedir operação de data center no Complexo do Pecém (Sep 2026) — Ação civil pública 0080626-66.2026.4.05.8100 de procuradores federais e defensores públicos, setembro de 2026: 300 MW, 120 geradores a diesel, cerca de 70 hectares, cerca de 2 km da área protegida, consulta aos Anacé pela Convenção 169 da OIT, estudo de impacto completo antes de qualquer licença de operação.
- 12.O POVO — Ação civil pública pede que Data Center Pecém não entre em operação (Sep 2026) — Detalhes da ação: testes de bombeamento com monitoramento dos poços vizinhos, validação empírica do modelo hidrogeológico e do limiar de rebaixamento de 0,40 m, captação de água subterrânea para resfriamento.
- 13.O POVO — MPF e DPU cobram data center do TikTok sobre uso d'água e de 120 geradores a diesel (May 2026) — Recomendação conjunta, maio de 2026: 88,24 m³ por dia de água subterrânea, quase três vezes os 30 m³ por dia divulgados no início; 120 geradores a diesel; plano de risco para o combustível; relatórios mensais ao operador do sistema; conexão ao esquema de alívio de carga.
- 14.Diário do Nordeste — Em meio a críticas sobre Data Center no CE, gestor da Cogerh garante que uso d'água não é 'expressivo' (Dec 2025) — Duas outorgas de poço de 26.280 m³ por ano cada (52.560 m³ por ano, 1,66 L/s, cerca de 144 m³ por dia), válidas até abril de 2035; cerca de 19,7 m³ por dia declarados no pedido de licença prévia; comparação com um condomínio de 150 famílias e com os 1.000 L/s do distrito industrial, publicada como 0,001%.
- 15.Business & Human Rights Resource Centre — Ceará authorises TikTok data centre to extract water volumes far above those originally planned (Nov 2025) — Reportagem do Intercept Brasil, novembro de 2025: as outorgas permitem 7,3 vezes o volume declarado no início; a Casa dos Ventos disse que as duas outorgas garantem redundância operacional; o órgão ambiental estadual disse que a licença não obriga a empresa a usar o volume total.
- 16.O POVO — Projeto de data center no Ceará tem quase 30% da capacidade de processamento de dados do Brasil (Oct 2026) — Engenheiro-chefe da operadora, outubro de 2026: cerca de 30 m³ por dia em operação, cerca de 3 m³ para resfriamento e 27 m³ para consumo humano; 200 MW na primeira fase; conexão ao sistema nacional.
- 17.Business & Human Rights Resource Centre — TikTok datacentre in a region already affected by droughts (May 2025) — Reportagem de maio de 2025: uso licenciado de 30 m³ por dia em circuito fechado a partir de poço artesiano; emergência por seca decretada ao menos uma vez em 16 dos 21 anos entre 2003 e 2024.
- 18.Canaltech — Entidades pedem paralisação imediata das obras do data center do TikTok no Ceará (Sep 2026) — Quatro organizações da sociedade civil pedem a paralisação da obra enquanto a Justiça decide, setembro de 2026; o TikTok não comenta por não ser parte.
- 19.AYON Ecosystem — Sixty kilometres of INMET silence — Pesquisa costeira anterior da AYON Ecosystem: nenhuma estação da rede automática do serviço meteorológico nacional a menos de 60 km do Cumbuco.