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Um data center na costa do kite: o que o registro público diz sobre o Pecém

Uma análise de pesquisa sobre o registro público do data center em construção no Pecém, em Caucaia, Ceará — o município das praias de kite do Cumbuco — para a ByteDance, dona do TikTok. Ele foi planejado com 300 MW, cerca de um quinto da carga elétrica estimada do Ceará hoje; seu uso de água aparece em documentos públicos com quatro números diferentes, de cerca de 20 a 144 metros cúbicos por dia; e ele fica a cerca de 2 km da área protegida em torno da Lagoa do Cauípe, onde houve uma competição de kitesurf em agosto de 2026. A seguir: o que os documentos mostram, o que está em disputa na Justiça e o que ainda não foi publicado.

O que está sendo construído

O empreendimento ocupa cerca de 70 hectares dentro da zona de processamento de exportação do complexo portuário do Pecém: dois prédios principais de mais de 70.000 m² cada, 20 salas de dados, uma subestação e uma estação de tratamento de esgoto. A operadora é a Omnia, plataforma de data centers da gestora Patria; segundo reportagens, os primeiros 200 MW de carga de TI, dentro de uma capacidade elétrica de 300 MW, estão totalmente contratados pela ByteDance. As obras começaram em janeiro de 2026; em meados de setembro a estrutura do primeiro prédio estava concluída, e a meta da operadora para iniciar a operação é julho de 2027.

É a primeira fase de algo maior. A ByteDance anunciou o plano de levar o local a 1 GW, e o investimento total em todas as etapas é estimado em mais de R$ 200 bilhões, com cerca de R$ 50 bilhões na primeira fase; os equipamentos que a ByteDance financia incluem servidores e GPUs, os chips usados em IA. Um dirigente municipal disse que cinco data centers foram aprovados para a mesma zona, só um deles público, e o planejamento energético nacional prevê pelo menos seis projetos de data centers eletrointensivos no Ceará até 2035, com demanda somada de 2,7 GW — até 3,34 GW numa estimativa posterior do governo estadual.

Por que esta é uma história do litoral

Caucaia é o município do Cumbuco, um dos destinos de kitesurf mais conhecidos do Brasil, e da Lagoa do Cauípe, logo atrás da praia, a cerca de 8 km do centro do Cumbuco, onde crianças da comunidade vizinha aprendem a saltar e onde houve uma competição de kitesurf em 29 de agosto de 2026. A lagoa fica dentro de uma área de proteção ambiental de 1.884 hectares, criada por decreto estadual em 1998 para proteger suas nascentes, reservas de água e mata ciliar.

Segundo a ação civil pública ajuizada na Justiça Federal em setembro de 2026, o data center fica a cerca de 2 km dessa área protegida, que se sobrepõe em parte à Terra Indígena Anacé, ainda em estudo pelo órgão federal de assuntos indígenas. A ação registra que as comunidades vizinhas dependem principalmente de poços, numa região com longo histórico de escassez de água.

Energia: 300 MW, e o que “100% renovável” significa aqui

Quando o TikTok confirmou o projeto, em dezembro de 2025, disse que o local funcionaria exclusivamente com energia renovável de novos parques eólicos construídos para ele pela Casa dos Ventos, sem usar a rede pública existente. Reportagens posteriores descrevem o arranjo de outro modo: um contrato de fornecimento de 20 anos em que os novos parques — cerca de 700 MW, por cerca de R$ 4 bilhões — injetam energia no sistema nacional, e o consumo do data center é compensado com essa geração por contrato. Outra reportagem fala em R$ 3,5 bilhões em investimento eólico. A localização dos parques não foi divulgada.

O projeto também prevê 120 geradores a diesel de reserva. Procuradores federais e defensores públicos pediram um plano de risco para a armazenagem de diesel, relatórios mensais ao operador nacional do sistema elétrico e a conexão ao esquema automático de alívio de carga do Nordeste — os dois últimos tratam de como uma carga desse porte se comporta na rede.

Para dar escala: 300 MW são cerca de um quinto da carga elétrica estimada do Ceará hoje, calculada em cerca de 1,5 GW. Funcionando na capacidade máxima o ano inteiro, 300 MW somariam cerca de 2,6 TWh — conta nossa, e um teto, já que nenhum número de consumo anual foi publicado. Os 2,7 a 3,34 GW previstos para projetos de data centers até 2035 seriam cerca de 1,8 a 2,2 vezes a carga do estado hoje.

Água: quatro números e uma lacuna

A água é onde o registro público mais diverge. O mesmo projeto aparece em licenças, outorgas, peças de procuradores e reportagens com quatro números diferentes, e uma lacuna:

  • Cerca de 19,7 m³ por dia
    O que é
    Consumo declarado no pedido de licenciamento ambiental
    Onde aparece
    Pedido de licença prévia, publicado em dezembro de 2025
  • 30 m³ por dia
    O que é
    Uso licenciado, descrito como circuito fechado abastecido por poço artesiano
    Onde aparece
    Licença ambiental estadual, publicada em maio de 2025; reafirmado pela operadora em outubro de 2026
  • 88,24 m³ por dia
    O que é
    Consumo citado por procuradores federais e defensores públicos, quase três vezes o número divulgado no início; a operadora contesta
    Onde aparece
    Recomendação conjunta, maio de 2026
  • 144 m³ por dia (52.560 m³ por ano, 1,66 L/s)
    O que é
    Máximo permitido por duas outorgas de poço válidas até abril de 2035; a Casa dos Ventos, então responsável pelo projeto, disse que o segundo poço é redundância
    Onde aparece
    Outorgas estaduais de recursos hídricos, publicadas em novembro e dezembro de 2025
  • Não publicado
    O que é
    Volume de água de reúso: autoridades federais pediram, ou disseram que o local usará, água de reúso
    Onde aparece
    Declarações públicas, publicadas em dezembro de 2025

O que os números de água significam

O maior número é cerca de 7,3 vezes o menor, e é um teto, não uma previsão: o órgão ambiental estadual diz que a autorização não obriga a empresa a usar o volume total. Mesmo o teto é modesto perto de uma cidade ou de uma indústria. O dirigente da companhia estadual de recursos hídricos o comparou ao consumo diário de um condomínio de 150 famílias e o pôs ao lado dos cerca de 1.000 L/s usados pelo distrito industrial do Pecém; essa comparação foi publicada como 0,001%, mas os números informados dão cerca de 0,17%.

O volume não é a questão inteira. A água vem de poços numa área de dunas onde as comunidades também dependem de poços, e Caucaia decretou emergência por seca ao menos uma vez em 16 dos 21 anos entre 2003 e 2024, segundo reportagens. A ação pede testes de bombeamento com monitoramento simultâneo dos poços vizinhos e a validação empírica do modelo hidrogeológico e do seu limiar de rebaixamento de 0,40 m. O TikTok descreve o resfriamento como um circuito fechado de reúso de água, e a ação descreve captação de água subterrânea para resfriamento; em outubro de 2026, a operadora disse que o local usará 30 m³ por dia, cerca de 3 m³ para resfriamento e o restante para consumo humano. Nenhuma descrição técnica do sistema de resfriamento foi publicada.

Licenciamento e a ação judicial

O órgão ambiental estadual classificou o projeto como de baixo a médio impacto, o que exige um relatório ambiental simplificado em vez de um estudo de impacto ambiental completo. As licenças prévia e de instalação foram concedidas; a licença de operação, não.

Em maio de 2026, procuradores federais e defensores públicos recomendaram que o data center não entrasse em operação antes de cumprir novas exigências ambientais. Em setembro de 2026, eles ajuizaram uma ação civil pública na Justiça Federal (processo 0080626-66.2026.4.05.8100) pedindo que nenhuma licença de operação seja emitida até que o povo Anacé seja consultado nos termos da Convenção 169 da OIT e que um estudo de impacto completo seja feito. Quatro organizações da sociedade civil pediram depois que a própria obra pare enquanto a Justiça decide. Os Anacé já protestaram contra o projeto, inclusive em agosto de 2025 e em abril de 2026.

A operadora diz que suas licenças são válidas, que os novos pedidos se referem apenas à fase de operação e que, por ora, não espera atraso em relação à meta de julho de 2027; ela também contesta o número de água dos procuradores. O TikTok não comentou, dizendo não ser parte do processo. Até 3 de novembro de 2026, não encontramos nenhuma decisão judicial publicada.

O que não foi publicado

Estes são os números que permitiriam a qualquer pessoa avaliar a pegada do projeto, e nenhum deles é público ainda:

  • Um número de água medido ou de projeto para a operação plena, e a tecnologia de resfriamento por trás dele.
  • O consumo anual de eletricidade esperado e a eficiência (PUE), não só a capacidade.
  • A localização e a geração dos parques eólicos do contrato, e se o consumo do data center é casado com eles hora a hora ou só ao longo do ano.
  • O diesel armazenado no local, e quantas horas os 120 geradores devem funcionar em testes e falhas de energia.
  • Dados de monitoramento dos poços em torno do local.
  • O que o local vai processar: entrega de vídeo, recomendação, treinamento de IA ou inferência de IA.

O que tornaria esta análise errada

Todos os números aqui vêm de licenças, outorgas, peças judiciais, declarações de empresas e reportagens, não de medição. Capacidade não é consumo: o local pode funcionar bem abaixo de 300 MW, sobretudo nos primeiros anos, e os tetos de água podem nunca ser atingidos. A operadora contesta pelo menos um dos números de água, e as reportagens divergem sobre o tamanho do novo investimento eólico. Quando uma licença de operação, uma decisão judicial ou dados medidos forem publicados, esta análise será atualizada.

A AYON Ecosystem não toma posição sobre se o data center deve operar. Esta análise mapeia o que se sabe e o que não se sabe, para que praticantes, moradores e leitores acompanhem a decisão com os mesmos números. A falta de medição é uma lacuna conhecida neste litoral: a pesquisa costeira anterior da AYON Ecosystem não encontrou nenhuma estação da rede automática do serviço meteorológico nacional a menos de 60 km do Cumbuco. Medição, mais do que opinião, é o que resolveria a maior parte das perguntas acima.

Disciplina de evidência

Isto é análise de pesquisa sobre fontes publicadas, não uma auditoria. Números de empresas são divulgações das próprias empresas; resultados de laboratório descrevem suas condições de teste, não todo produto; projeções não são medições. Os números deste campo mudam rápido, por isso cada um é datado pela sua fonte.

Referências e dados

  1. 1.Diário do Nordeste — Omnia segue cronograma de Data Center do TikTok no Ceará em meio à ação do MPF (Sep 2026) — Situação da obra (estrutura do primeiro prédio concluída, setembro de 2026), 20 salas de dados, dois prédios de mais de 70.000 m² cada, 200 MW de carga de TI que seriam contratados pela ByteDance, meta da operadora para julho de 2027 e sua visão de que a ação trata só da fase de operação.
  2. 2.InvestNews — O data center do TikTok no Ceará: o quebra-cabeça por trás do gigante de R$ 200 bilhões (Jun 2026) — Estrutura (Omnia, Patria, ByteDance, Casa dos Ventos), 300 MW na primeira fase, cerca de R$ 50 bilhões de investimento inicial, plano de 1 GW e mais de R$ 200 bilhões, servidores e GPUs, contrato de energia de 20 anos, cerca de 700 MW de novos parques eólicos por cerca de R$ 4 bilhões injetando no sistema nacional, operadora contestando o número de água, protestos Anacé em agosto de 2025 e abril de 2026.
  3. 3.eixos — TikTok confirma primeiro data center na América Latina (Dec 2025) — Confirmação do TikTok, dezembro de 2025: mais de R$ 200 bilhões em todas as etapas, energia exclusivamente renovável de novos parques eólicos dedicados, sem uso da rede pública existente, resfriamento em circuito fechado, primeira operação em 2027.
  4. 4.The Next Web — Omnia and Casa dos Ventos sign $2bn power deal anchoring TikTok's Brazil data centre (May 2026) — Acordo de fornecimento de energia de cerca de US$ 2 bilhões, maio de 2026; cerca de R$ 3,5 bilhões em nova capacidade eólica; 200 MW de carga produtiva dentro de um envelope de 300 MW; parques sem localização divulgada.
  5. 5.O POVO — Apenas um dos data centers aprovados em Caucaia segue sem negócio (Jul 2026) — Um dirigente municipal: cinco data centers aprovados para o complexo da Omnia na zona de processamento de exportação, só um deles público, julho de 2026.
  6. 6.Diário do Nordeste — Data centers no Ceará podem consumir energia equivalente a 7 milhões de residências (Aug 2026) — Pelo menos seis projetos de data centers eletrointensivos previstos no Ceará até 2035, com demanda prevista de 2,7 GW (plano decenal de energia); até 3,34 GW entre 2027 e 2035 na estimativa posterior do governo estadual.
  7. 7.O POVO — Casa dos Ventos amplia investimentos e quer alcançar 11 GW até 2030 (Mar 2026) — Carga elétrica atual do Ceará estimada em cerca de 1,5 GW, março de 2026.
  8. 8.Ceará State Decree 24,957 of 5 June 1998 — Lagamar do Cauípe environmental protection area — Cria a área de proteção ambiental do Lagamar do Cauípe, em Caucaia, com 1.884 hectares, para proteger nascentes, reservas de água e mata ciliar.
  9. 9.Diário do Nordeste — Lago Nautic Festival leva competições náuticas à Lagoa do Cauípe (Aug 2026) — Kitesurf entre as competições na Lagoa do Cauípe, Caucaia, em 29 de agosto de 2026.
  10. 10.SmarterTravel — Brazil's kite surfing paradise — Kitesurf na Lagoa do Cauípe, perto do Cumbuco, onde crianças da comunidade vizinha treinam saltos.
  11. 11.MPF — MPF e DPU vão à Justiça para impedir operação de data center no Complexo do Pecém (Sep 2026) — Ação civil pública 0080626-66.2026.4.05.8100 de procuradores federais e defensores públicos, setembro de 2026: 300 MW, 120 geradores a diesel, cerca de 70 hectares, cerca de 2 km da área protegida, consulta aos Anacé pela Convenção 169 da OIT, estudo de impacto completo antes de qualquer licença de operação.
  12. 12.O POVO — Ação civil pública pede que Data Center Pecém não entre em operação (Sep 2026) — Detalhes da ação: testes de bombeamento com monitoramento dos poços vizinhos, validação empírica do modelo hidrogeológico e do limiar de rebaixamento de 0,40 m, captação de água subterrânea para resfriamento.
  13. 13.O POVO — MPF e DPU cobram data center do TikTok sobre uso d'água e de 120 geradores a diesel (May 2026) — Recomendação conjunta, maio de 2026: 88,24 m³ por dia de água subterrânea, quase três vezes os 30 m³ por dia divulgados no início; 120 geradores a diesel; plano de risco para o combustível; relatórios mensais ao operador do sistema; conexão ao esquema de alívio de carga.
  14. 14.Diário do Nordeste — Em meio a críticas sobre Data Center no CE, gestor da Cogerh garante que uso d'água não é 'expressivo' (Dec 2025) — Duas outorgas de poço de 26.280 m³ por ano cada (52.560 m³ por ano, 1,66 L/s, cerca de 144 m³ por dia), válidas até abril de 2035; cerca de 19,7 m³ por dia declarados no pedido de licença prévia; comparação com um condomínio de 150 famílias e com os 1.000 L/s do distrito industrial, publicada como 0,001%.
  15. 15.Business & Human Rights Resource Centre — Ceará authorises TikTok data centre to extract water volumes far above those originally planned (Nov 2025) — Reportagem do Intercept Brasil, novembro de 2025: as outorgas permitem 7,3 vezes o volume declarado no início; a Casa dos Ventos disse que as duas outorgas garantem redundância operacional; o órgão ambiental estadual disse que a licença não obriga a empresa a usar o volume total.
  16. 16.O POVO — Projeto de data center no Ceará tem quase 30% da capacidade de processamento de dados do Brasil (Oct 2026) — Engenheiro-chefe da operadora, outubro de 2026: cerca de 30 m³ por dia em operação, cerca de 3 m³ para resfriamento e 27 m³ para consumo humano; 200 MW na primeira fase; conexão ao sistema nacional.
  17. 17.Business & Human Rights Resource Centre — TikTok datacentre in a region already affected by droughts (May 2025) — Reportagem de maio de 2025: uso licenciado de 30 m³ por dia em circuito fechado a partir de poço artesiano; emergência por seca decretada ao menos uma vez em 16 dos 21 anos entre 2003 e 2024.
  18. 18.Canaltech — Entidades pedem paralisação imediata das obras do data center do TikTok no Ceará (Sep 2026) — Quatro organizações da sociedade civil pedem a paralisação da obra enquanto a Justiça decide, setembro de 2026; o TikTok não comenta por não ser parte.
  19. 19.AYON Ecosystem — Sixty kilometres of INMET silence — Pesquisa costeira anterior da AYON Ecosystem: nenhuma estação da rede automática do serviço meteorológico nacional a menos de 60 km do Cumbuco.